Viva livremente com a mente livre

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A maioria de nós talvez não tenha a sensação plena de liberdade. Como ser livre num mundo onde assumimos tantos compromissos? Ainda que a maioria deles tenha sido livremente assumido, muitos são os contratos que nossos ancestrais assinaram e nós apenas nos inserimos num pacto social e cultural caduco, que sofreu pouca alteração no tempo. Ainda somos competitivos, agressivos, ciumentos, possessivos. A ideia de que liberdade é poder escolher é meio fajuta, afinal estamos submetidos a modelos pré-determinados de viver, comportar-se e logo ser. As proféticas propagandas de mercado querem determinar o que iremos consumir, e são sempre incisivas:

“você não pode perder”, “você não vai resistir”, “não fique de fora”, “leve agora mesmo”. Dando-nos a falsa sensação de liberdade, oferecendo, no entanto mais do mesmo.

Nascemos livres em certo sentido, e pouco a pouco somos ajustados aos padrões, que nossos pais antes de nós sofreram. Ser livre em termos negativos é não sofrer submissão, não ser escravizado, não estar submetido à servidão. No entanto como fomos demasiadamente reprimidos, abusados, forçados a entrar no “modelo perfeito” fugimos às compras, ao consumismo. Prosperar financeiramente então possibilitaria maior liberdade aos minoritários afortunados. Mas ainda assim, que tipo de liberdade seria esta em que estaríamos cercados de “seguranças” para nos proteger dos menos abastados? O segurança seria a encarnação máxima de nosso desejo mais profundo, de eternizar-se, de permanecer, ainda que todos estejam conscientes de que nossa vida é extremamente frágil e insegura e que cedo ou tarde abandonaremos estas paragens. Podemos ser livres com a recordação de nossa morte iminente?

Ainda que a prosperidade e a abundancia não configure como um patamar a ser alcançado, poderemos não nos sentir livres efetivamente. Ter envolve perder, isto é um fato, não é mal buscar conforto e comodidade, o problema é quando nossa felicidade depende destas condições externas, então não haverá liberdade, pois não podemos controlar a existência com seus altos e baixos.

Liberdade nos remota diretamente para espaço, um campo aberto nos inspira liberdade, de correr, de pular, de gritar, mas a vida moderna nos espreme, aperta, empilha e ainda mais, falta-nos espaço interno. Nossa mente esta abarrotada de afazeres, planejamentos, preocupações e mal se pode respirar. E o peito comprimido, a garganta apertada, a angustia ocupando um espaço muito maior do que gostaríamos; faz-nos servis aos nossos conflitos internos, acabamos reconhecendo que estamos escravos de nossa ansiedade, de nossas magoas, de nossos medos, de nossos vícios e compulsividade, de nossa incapacidade de ser feliz.

Liberdade em sua etimologia, do grego eleuthéria, significava liberdade de movimento, e implicava na possibilidade de movimentar o corpo sem restrições externas. Seria interessante refletirmos também sobre a palavra liberdade em alemão “Freiheit”, que originou a palavra “Freedom” na língua inglesa, e significava “pescoço livre”, clara referencia aos grilhões nos pescoços dos escravos. Finalmente a palavra “libertas” do latim que originou “liberdade” significa “independência”. Em todas estas origens etimológicas encontramos uma situação politica, o direito do ente humano de ir e vir, de comandar seus passos e movimentos em busca de sua própria realização, autonomia e espontaneidade.

Temos no yoga a palavra sânscrita Moksha ou Mukti, como coroamento da pratica da contemplação, a meta da meditação traduz-se por liberação. Entre os budistas existe a palavra Nirvana que no Pali significa soprar-respirar e também liberação, nir-não vana-grilhão. Mas ambas as palavras significando liberdade enfim.

Com a mente livre vive-se livremente!

Esta parece ser uma boa chamada para vender algum tipo de curso de fim de semana que prometa a solução de todos os problemas, mas a meditação não removerá os problemas, ela nos ensina a lidar com eles, e o melhor é que é gratuito, é natural, é o que somos em essência, uma vasta mente vazia e espaçosa. No entanto este espaço não vai ser reconhecido em nossa fragmentada mente superficial, este espaço infinito esta mais além, mais profundo, e será necessário mergulhar em si mesmo para ver diretamente nossa real dimensão como seres eternos e essencialmente livres. Mas a primeira liberdade é justamente mental, liberdade de ver-se a si mesmo com interesse e sem julgamentos, então poderemos realizar Moksha ou Nirvana. A libertação intelectual para ver o mundo tal como ele é. Podemos estar presos em uma imagem congelada de nós mesmos, atendendo aos anseios e projeções de outros, acorrentados na busca de aceitação e reconhecimento, poderemos estar presos em uma maneira condicionada de viver e atuar no mundo, estas são grades invisíveis, mas que fazem sofrer nosso corpo e mente.

Meditamos para resgatar a donzela de nossa alma acorrentada em uma rocha de sofrimento e atormentada pelo dragão do medo e da personalidade, meditamos para dissolver nossos grilhões internos de dor emocional, para romper as grades do apego, e as correntes pesadas da aversão. Meditamos para remover nossa alma da sombria masmorra da ignorância e esquecimento.

Se bem sucedidos teremos a alma livre, leve e plena!

Encerramos com o pensamento vivo de Mahatma Gandhi, mártir da liberdade:

“A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência.”

Vida plena!