Divagações sobre o Tantra e o hinduísmo

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Estamos em plena festividade do Maha Shivaratri – A Grande Noite de Shiva.
Dos diferentes cultos que se prestam nas noites de hoje e amanhã, está o Puja ou Reverência Ritualística do Shiva Linga.
Shiva é a auspiciosidade, seu nome já indica claramente isto. Mas pode ainda significar a própria Consciência.
A palavra Linga ou Lingam, tem sentidos variados. Da etimologia do Sânscrito, Linga = Signo ou Sinal.
Neste ponto considero e nomeio o Tantra como:

SEMIÓTICA ANCESTRAL HINDU.
Uma vez que a semiótica é a ciência que se presta a análise e estudo da linguagem, que se desenvolve exatamente através do triunvirato: Signo – Significado – Significante.
Assim como nos remetemos a esta antiga Tradição Filosófico Comportamental como:

TANTRA – MANTRA – YANTRA.

Algo que se traduz também nas máscaras da Divindade como:
Brahma – Vishnu – Shiva.
E mais acertadamente como:
Shivam – Satyam – Sundaram
Ou seja, a Divindade ou a Instância do Sagrado é:
Consciência – Veracidade – Beleza!

Quero compartilhar com vocês que finalmente vou fazer um curso de massagem tantrica para me conectar ainda mais com essa filosofia tão profunda!

A pedra que serve como Signo ou Linga, deve ser recolhida da natureza, exatamente como ela é, sem passar por lapidação e por manipulação humana.
Assim também é o Self, o SER REAL, algo que não passa por lapidação, visto que é PERFEITO, e que não pode ser alterado e construído por obras e mãos humanas!

O Signo está ENCARNADO ou INCORPORADO ao objeto ou fenômeno!
Da mesma Maneira o Espírito está encarnado na Matéria!
Shiva está incorporado à Shakti ou Prakriti!
Quando o devoto realiza oblações e oferendas à pedra fálica, ou Shiva Linga, ele executa corporalmente um entendimento e uma vivência subjetiva!

Neste caso, prestar honra à pedra não lapidada, é reverenciar a Natureza como manifestação de PERFEIÇÃO e BELEZA!
Cabe ao Pujari, àquele que executa o rito de oblação, dar o sentido. Enquanto a assistência, o círculo de devotos – KULA, mantém a mente concentrada no Murti ou imagem arquetípica da Divindade, que no caso é reverenciada como Mahadeva – Nataraja – Shankara.
Ao longo de todo o Ritual, entoam-se Kirtans e Bhajans, hinos de exaltação e louvor. E aplica-se o Diksha Mantra, murmurando ou recitando mentalmente (Manasika) a fórmula sonora do Mantra entregue no ato do Diksha ou Iniciação. E o cantar delicioso do Bhakta Sadhana (Disciplina Espiritual e Devocional) de:
OM NAMAH SHIVAYA!

Se você quer entrar em contato com esta Egregora, Força e Luz Ancestral, o recomendável é no mínimo dedicar um significativo e comovente momento de entoação do Bhajan, seguido de uma prática disciplina e devotada de Dhyana – Contemplação Meditativa!

Considerando que a Divindade habita o seu CORAÇÃO!
O que não deixa de ser uma experiência autêntica e legítima de RECONHECIMENTO!
A esta prática, o Tantra nomeou como Nyasa – Identificação!
Já que a ideia e o empírico da prática transcendental, é que onde colocamos atenção e energia, para lá fluímos com todo o nosso SER.

Uma vez que estabeleçamos este foco, naturalmente nos identificamos com o objeto de concentração ou Devoção!

No Shiva Samhitá e em várias escrituras do Shaivismo da Caxemira, afirma-se que não existe nada que não seja Shiva, que ele é simultaneamente o objeto primordial da contemplação, a própria contemplação e ainda o Self real e original do contemplativo.
Este é o fundamento da filosofia Adwaita ou não-dualista, em que a ideia central é que toda a criação é “Spanda” – Vibrante Energia Consciente, se expressando em diferentes nomes e formas. O termo Shaiva ou Shaivismo deriva de Shiva, considerado o Anuttara, a Consciência Suprema, revelada nesta mesma diversidade, logo é tanto transcendente quanto imanente, tanto manifesto, quanto imanifesto.

Desta maneira, o objeto último de Realização, não se trata de uma conquista, de um processo evolutivo, antes, trata-se de uma Revelação ou Reconhecimento desta mesma natureza transcendente, simultânea e paradoxalmente manifesta e imanifesta, onisciente e onipresente.
Shiva, em diálogo com Shakti Devi, revela sua natureza transcendente, sempre estável e presente em todas as criaturas e fenômenos nestes versos:
“EU SOU a Inteligência, que propulsiona as ações no caminho do mérito ou no caminho do demérito.

Todo este Universo, o que se move e o que permanece imóvel, deriva de Mim. Todas a criação é preservada por Mim. Toda a criação é absorvida em Mim no momento da dissolução final, pois somente o Ser existe, e EU SOU esse Ser. Não há nada que exista separado do Ser.”
Há diferentes Darshanas (pontos de vista filosóficos), diferentes Sadhanas (Práticas espirituais), diferentes Murtis (Imagens arquetípicas sagradas), diferentes Mantras (Fórmulas sonoras contemplativas), diferentes Mudras (gestos e selos energéticos), diferentes Yantras (objetos de adoração e formas geométricas para concentração), diferentes Kriyas (purificações físicas e mentais), diferentes Tantras (tratados) e diferentes Margas (caminhos reguladores), mas um só é o objeto e realização da consciência (Bhoga Moksha), uma só é a meta de isolamento positivo (Kaivalyam).

E repousam sobre o mesmo Ser Absoluto sem segundo, benévolo e auspicioso – Shiva!
Um mesmo Verbo criador, organizador e transformador – Omkara!
Um só Espírito, um só Amor!
A Ele eu me prostro!
Jaya Shiva Shakti!